Anamnese online: o que perguntar antes de montar o treino

Anamnese online para personal: modelo de perguntas por bloco, como cada resposta muda o treino e os sinais que pedem liberação médica antes de começar.

Terceira semana de consultoria. O aluno manda: “o agachamento está incomodando o joelho, é normal?”. Você vai atrás do histórico e descobre que ele operou o menisco há dois anos. Ninguém perguntou, e ele não achou importante contar.

No presencial, você veria a execução, a careta, o jeito de subir a escada. No online, a anamnese é quase tudo o que você tem antes de prescrever. Se ela for um formulário genérico de 40 perguntas, o aluno responde no automático. Se for curta demais, faltam justamente as informações que mudam o treino.

Este guia traz um modelo de anamnese online organizado em blocos, mostra como transformar cada resposta em decisão de treino e lista os sinais que pedem avaliação médica antes do primeiro treino.

Para que serve a anamnese na consultoria online

A anamnese tem três funções, e toda pergunta precisa servir a pelo menos uma delas:

  • Segurança: identificar quem precisa de liberação médica ou de cuidado específico antes de começar.
  • Prescrição: reunir os dados que definem frequência, volume, escolha de exercícios e progressão.
  • Relação: entender o que o aluno espera, o que já tentou e o que costuma fazer ele desistir.

Um teste simples para cortar perguntas: “se a resposta fosse diferente, eu mudaria alguma coisa no treino ou no acompanhamento?”. Se a resposta for não, a pergunta sai. Formulário enxuto é respondido com mais cuidado.

Outra diferença do online: você não pode “perguntar depois” com a mesma facilidade. No presencial, a conversa continua na sessão seguinte. Na consultoria, o treino da primeira semana já sai com base no que está escrito. Por isso a anamnese online precisa ser mais estruturada, não necessariamente mais longa.

Modelo de anamnese online em 7 blocos

A ordem importa. Comece pelo que é fácil de responder e deixe as perguntas abertas para o meio, quando o aluno já está engajado. Use a coluna “tipo” para montar o formulário: resposta curta, número, escolha ou foto.

Bloco Pergunta Tipo
1. Básico Idade, altura e peso atual Número
1. Básico Profissão e horário de trabalho Texto curto
2. Saúde Tem algum diagnóstico médico (pressão, coração, diabetes, outros)? Escolha + texto
2. Saúde Usa algum medicamento contínuo? Qual? Texto
2. Saúde Já sentiu dor no peito, falta de ar fora do normal ou tontura ao fazer esforço? Escolha
2. Saúde Está gestante ou teve parto nos últimos 12 meses? Escolha
3. Lesões Tem ou teve lesão, cirurgia ou dor recorrente? Onde e quando? Texto
3. Lesões Algum movimento hoje causa dor? Texto
4. Treino Há quanto tempo treina sem parar mais de um mês? Escolha
4. Treino Quais exercícios você conhece e faz com segurança? Texto
4. Treino Já treinou com personal ou consultoria? O que funcionou e o que não funcionou? Texto
5. Rotina Quantos dias por semana você consegue treinar de verdade? Escolha
5. Rotina Quanto tempo tem por sessão? Escolha
5. Rotina Como está seu sono (horas e qualidade)? Escolha
6. Estrutura Onde vai treinar (academia, casa, condomínio)? Escolha
6. Estrutura Quais equipamentos tem disponíveis? Texto ou foto
7. Objetivo Qual é o seu objetivo principal para os próximos 3 meses? Escolha + texto
7. Objetivo O que fez você parar das outras vezes? Texto

São 18 perguntas. Dá para responder em 10 a 15 minutos, que é um tamanho que a maioria dos alunos aceita no primeiro acesso.

O que deixar de fora

  • Perguntas que você não vai usar (“cor favorita de roupa de treino”, “música preferida”).
  • Detalhamento alimentar completo, se você não é nutricionista. Prescrever dieta é atribuição do nutricionista. Você pode perguntar se o aluno já tem acompanhamento nutricional e, se não tiver, indicar um profissional. Veja como funciona a parte de alimentação em como montar dieta na consultoria online.
  • Dados sensíveis sem necessidade. Pergunte sobre saúde o que muda o treino, e guarde essas respostas com cuidado (a LGPD, Lei 13.709/2018, trata dado de saúde como dado sensível).

Como cada resposta muda o treino

A anamnese só vale se virar decisão. Esta tabela mostra exemplos de leitura. Ela não substitui o seu raciocínio profissional, mas ajuda a não deixar resposta parada no formulário.

Se o aluno respondeu O que considerar na prescrição
Treina há menos de 6 meses Menos exercícios por sessão, foco em padrões básicos, progressão de carga mais conservadora
Pode treinar 2 dias por semana Treino de corpo inteiro faz mais sentido do que divisão por grupo muscular
Tem 40 minutos por sessão Menos exercícios, descansos objetivos, priorizar multiarticulares
Dor no ombro ao elevar o braço Evitar provocar o sintoma, ajustar amplitude e escolha de exercícios, sugerir avaliação com fisioterapeuta ou médico
Treina em casa com halteres leves Progressão por repetições, tempo de execução e variações, não só por carga
Dorme 5 horas e acorda cansado Volume inicial mais baixo, atenção à recuperação no check-in
Parou outras vezes por falta de tempo Treino que caiba na pior semana, não na melhor
Objetivo é correr uma prova em 4 meses Integrar força com a planilha de corrida, evitar fadiga acumulada nas pernas perto dos treinos longos

Repare que várias respostas mudam mais a estrutura do treino do que os exercícios. Frequência e tempo disponível definem a divisão. Experiência define a complexidade. Rotina define o volume que o aluno vai aguentar sem desistir. Para o passo seguinte, veja como prescrever treino online com segurança.

Sinais que pedem liberação médica antes de começar

Você não diagnostica nada. O papel da anamnese aqui é triagem: perceber quando o aluno precisa passar por um médico antes de começar ou de aumentar a intensidade. Existem questionários de prontidão para atividade física usados há décadas com esse fim, e vale estudar um deles para basear o seu bloco de saúde.

Checklist de sinais de atenção:

  • Dor ou desconforto no peito durante esforço
  • Desmaio, tontura forte ou falta de ar desproporcional ao esforço
  • Diagnóstico de doença cardíaca, pressão alta sem controle ou diabetes
  • Uso de medicamento que afeta pressão, frequência cardíaca ou glicemia
  • Cirurgia recente ou lesão em tratamento
  • Dor articular que piora com movimento ou acorda o aluno à noite
  • Gestação ou pós-parto recente
  • Orientação médica anterior para evitar exercício

Se algum item for marcado, a conduta segura é pedir avaliação médica e, quando fizer sentido, liberação por escrito antes de começar. Explique isso ao aluno como cuidado, não como burocracia: “quero montar um treino que te ajude, e para isso preciso que o seu médico confirme que está tudo certo para começar”.

Registre a orientação que você deu e a resposta do aluno. Se ele preferir começar sem a avaliação, a decisão e a sua recomendação ficam documentadas. Para dúvidas sobre responsabilidade e limites, consulte o CREF da sua região.

Fotos e medidas iniciais

A anamnese é o momento natural de pedir o ponto de partida. Sem ele, o check-in das próximas semanas não tem com o que comparar.

O que pedir:

  1. Peso atual, medido de manhã, em jejum, depois de ir ao banheiro.
  2. Medidas de circunferência que o aluno consegue tirar sozinho com fita (cintura na altura do umbigo, quadril, braço, coxa).
  3. Fotos de frente, lado e costas, com a mesma roupa, mesma luz e mesmo lugar que vai usar nas próximas.
  4. Vídeo curto de 1 ou 2 movimentos que ajudam a avaliar mobilidade e execução, como um agachamento livre sem carga.

Deixe claro para que servem as fotos, quem tem acesso e que elas não serão publicadas sem autorização expressa. Foto de aluno só sai da consultoria com permissão por escrito.

Como fazer o aluno responder (e responder bem)

A melhor anamnese do mundo não serve se o aluno larga no meio. Algumas práticas que ajudam:

  • Explique o porquê antes de começar. Uma frase basta: “suas respostas definem o seu treino, então quanto mais detalhe, melhor ele fica”.
  • Peça no primeiro acesso, não depois. A motivação do aluno é maior no dia em que ele contratou.
  • Misture tipos de resposta. Escolha e número são rápidos; deixe texto só onde você realmente precisa de detalhe.
  • Diga quanto tempo leva. “Leva uns 12 minutos” reduz o abandono.
  • Combine o prazo do primeiro treino. “Assim que você responder, seu treino fica pronto em até 48 horas” cria um motivo para terminar.

Depois que ele responde, faça uma devolutiva curta antes de enviar o treino. Duas ou três linhas mostrando que você leu: “vi que você treina em casa e tem 40 minutos, então montei três treinos de corpo inteiro com os halteres que você tem. Por causa do ombro, deixei a elevação acima da cabeça de fora por enquanto”. Isso vale mais para a percepção de cuidado do que qualquer material bonito.

Anamnese não é só do primeiro dia

O aluno muda. Troca de emprego, se lesiona, engravida, muda de academia. Duas formas de manter a anamnese viva:

  • Revisão periódica: a cada ciclo de treino (por exemplo, a cada 8 ou 12 semanas), peça uma versão curta com 4 ou 5 perguntas sobre o que mudou.
  • Perguntas fixas no check-in: energia, sono e dor aparecem toda semana. Quando um desses muda de padrão, é hora de reabrir a conversa. Veja como estruturar isso em check-in semanal na consultoria online.

Também vale registrar no histórico do aluno as decisões tomadas a partir da anamnese (“sem salto por causa do joelho”). Quando você revisar o treino daqui a três meses, não vai precisar lembrar de cabeça.

Onde guardar a anamnese

Anamnese em formulário solto, PDF no e-mail e conversa no WhatsApp viram três lugares diferentes para procurar a mesma informação. O ideal é que as respostas fiquem junto do treino que você prescreveu, para consultar na hora de ajustar. A diferença entre mandar tudo por arquivo e ter tudo num app aparece também na experiência do aluno, como mostra o artigo sobre treino em PDF ou aplicativo.

Na Revo, você monta a sua própria anamnese com perguntas de texto, número, escolha ou foto, e o aluno responde no primeiro acesso ao app. As respostas ficam na ficha dele, na mesma tela do treino, da dieta, dos check-ins e do pagamento. Quando for ajustar o treino B daqui a dois meses, a informação do joelho operado está ali do lado.

Resumo

  • Toda pergunta precisa servir à segurança, à prescrição ou à relação com o aluno. Se não muda nada, corte.
  • Organize em blocos: básico, saúde, lesões, experiência, rotina, estrutura e objetivo.
  • Transforme resposta em decisão: frequência e tempo definem a divisão, experiência define a complexidade.
  • Sinais de risco pedem avaliação médica antes de começar. Registre a orientação.
  • Peça fotos e medidas iniciais com autorização clara sobre o uso.
  • Faça uma devolutiva curta e revise a anamnese a cada ciclo.